Quando eu faço esta pergunta há sempre desconforto: Você está a conduzir a sua carreira… ou está a ser conduzido por ela?
Em 2026, esta pergunta fica ainda mais relevante. Não porque o mercado “assuste”, mas porque a mudança acelerou, e em 2026 a inércia vai tornar-se, mais do que já é, num risco silencioso.
A Deloitte (2025), a Gartner (2026) e a McKinsey Global Institute (2024), apesar de terem ângulos diferentes sobre como veem o trabalho, todos convergem numa mensagem simples: o trabalho tem vindo a ser e vai continuar a ser redesenhado em 2026.
A boa notícia: você não tem de seguir todas as tendências. A má notícia: também não pode ignorá-las e esperar que nada mude.
O ponto de equilíbrio é este: entender o que está a acontecer no mercado e, a partir daí, escolher o que faz sentido para si, conjugando o que o mercado pede, os seus interesses, as suas competências e a vida que deseja.
Sem pânico. Sem “modas”. Com critério.
A seguir, deixo-lhe 4 tendências mais comuns que aparecem repetidamente nestas análises e que eu acredito que vão ditar o tom deste ano. E mais importante que tudo, explico-lhe o que pode significar para a sua carreira.
1. IA deixa de ser “ferramenta” e passa a ser “forma de trabalhar”
Uma tendência clara é a passagem do “uso pontual de IA” para o redesenho de workflows e do próprio trabalho. (Gartner, 2026; McKinsey Global Institute, 2024)
- O que isto significa para si?
Se você estiver numa função onde grande parte do trabalho é procedimental e repetível, o mercado vai pressionar para que isso seja feito de forma diferente. (McKinsey Global Institute, 2024) - O que pode fazer para se adaptar?
. Não comece por ferramentas. Comece por valor: onde é que o seu trabalho exige julgamento, contexto, decisão, relação, influência?
. Escolha uma parte do seu trabalho e redesenhe-a (pequeno, concreto): reduzir “trabalho sobre o trabalho” e aumentar qualidade do output, isto é particularmente relevante quando se fala de recuperar capacidade organizacional. (Deloitte, 2025)
. E faça esta pergunta: “Se a minha função mudar, qual é a parte de mim que continua valiosa?”
Você não tem de “ser uma pessoa de IA”. Você tem de ser uma pessoa com clareza sobre onde cria valor, e como o pode aumentar.
2. A mudança de competências é estrutural (e não é só “tech”)
A evidência é consistente: há uma necessidade de requalificação/elevação de competências em escala, associada à adopção tecnológica e às transições do trabalho. (McKinsey Global Institute, 2018, 2024)
Ao mesmo tempo, a OECD (2025) reforça a importância de competências fundamentais e da capacidade de adaptação, e chama a atenção para desigualdades no acesso a desenvolvimento de competências.
- O que isto significa para si?
O mercado vai continuar a premiar quem aprende, mas sobretudo quem transforma aprendizagem em comportamento e posicionamento.
- O que pode fazer para se adaptar?
. Troque “que curso faço?” por “que capacidade preciso de fortalecer?”
. Aprenda com intenção: “o que vou fazer de forma diferente nos próximos 30 dias por causa disto?”
. Não confunda estar “atualizado” com estar alinhado. Você pode aprender muito e continuar no lugar errado.
3. Mercados de trabalho resilientes, mas com sinais de abrandamento, e envelhecimento como tema estrutural
A Organisation for Economic Co-operation and Development (OECD, 2025) descreve mercados de trabalho com níveis elevados de emprego, e desemprego historicamente baixo, mas com sinais de abrandamento e normalização em algumas dimensões.
E o tema do envelhecimento e do impacto na disponibilidade de mão-de-obra e sustentabilidade dos sistemas aparece como desafio central. (OECD, 2025)
- O que isto significa para si?
A ideia de estabilidade como permanência pode continuar a ser uma ilusão e a sua carreira precisa de ser sustentável para durar.
- O que pode fazer para se adaptar?
. Troque “onde é seguro?” por “onde é que eu consigo manter a capacidade e energia ao longo do tempo?”.
. Reforce a sua empregabilidade com escolhas consistentes: trabalhe nas suas competências, reforce a sua rede de contactos, crie plano B possível.
. E faça esta pergunta: o seu ritmo atual é compatível com a vida que você quer sustentar?
4. O “fazer trabalho sobre o trabalho” é um risco, e a capacidade humana é a base
Segundo a Deloitte (2025) existe uma tensão muito concreta: em muitas organizações, o trabalho está a ficar preso em camadas de management e coordenação, ruído e sobrecarga, e existe a necessidade de recuperar capacidade organizacional.
- O que isto significa para si?
Em 2026, você não vence por fazer mais. Vence por fazer melhor, com mais clareza, mais foco e menos ruído. (Deloitte, 2025) - O que pode fazer para se adaptar?
. Identifique onde está a ser drenado por ruído: reuniões sem decisão, urgências falsas, excesso de responsabilidade sem poder, limites fracos.
. Faça uma mudança pequena, mas real: reduza 10–20% do “trabalho sobre o trabalho”. - Pergunte-se com honestidade: o que é que você está a tolerar que lhe está a roubar capacidade e energia? Sem capacidade, você perde margem de escolha. E perder margem é perder liberdade.
Uma nota minha,
É importante perceber as tendências do mercado. Mas eu diria que 2026 não lhe pede que você siga tendências às cegas. Pede-lhe outra coisa:
- clareza sobre o que você quer construir
- critérios de decisão para escolher de acordo com o que está mais alinhado consigo
- coragem para ajustar, antes do sufoco
Você não tem de mudar tudo. Mas provavelmente tem de mudar alguma coisa. Afinal, quem está a conduzir a sua carreira é você.
Fontes
Deloitte (2025). 2025 Global Human Capital Trends. Deloitte Insights. Retirado de https://www.deloitte.com/us/en/insights/topics/talent/human-capital-trends.html
Deloitte (2025). Reclaiming organizational capacity. Deloitte Insights. Retirado de https://www.deloitte.com/us/en/insights/focus/human-capital-trends/2025/reclaiming-organizational-capacity.html
Gartner (2026). Future of Work Trends 2026: Strategic insights for CHROs. Retirado de https://www.gartner.com/en/articles/future-of-work-trends
McKinsey & Company (2018). Skill shift: Automation and the future of the workforce. McKinsey Global Institute. Retirado de https://www.mckinsey.com/featured-insights/future-of-work/skill-shift-automation-and-the-future-of-the-workforce
McKinsey Global Institute (2024). A new future of work: The race to deploy AI and raise skills in Europe and beyond. McKinsey & Company. Retirado de https://www.mckinsey.com/mgi/our-research/a-new-future-of-work-the-race-to-deploy-ai-and-raise-skills-in-europe-and-beyond
Organisation for Economic Co-operation and Development (2025). OECD Employment Outlook 2025. OECD Publishing. Retirado de https://www.oecd.org/en/publications/2025/07/oecd-employment-outlook-2025_5345f034.html
Organisation for Economic Co-operation and Development (2025). OECD Skills Outlook 2025. OECD Publishing. Retirado de https://www.oecd.org/en/publications/2025/12/oecd-skills-outlook-2025_ac37c7d4.html


