“Não sei se estou pronta, mesmo quando todos dizem que estou.” 

Ouvi esta frase pela primeira vez há muitos anos. Desde então, perdi a conta às vezes que a ouvi novamente. Sempre de mulheres. Sempre competentes. Sempre com muito mais para dar do que aquilo que acreditam ter. 

Março é o mês em que se fala muito sobre as mulheres. E bem. Mas há conversas que raramente acontecem nas sessões formais, nos painéis, nos artigos de opinião. Conversas sobre o que se passa por dentro. Sobre os padrões que muitas de nós carregamos sem sequer nos apercebermos. E sobre o que é possível fazer com eles. 

Ao longo de mais de 12 anos a acompanhar profissionais, há três desafios que vejo aparecer repetidamente nas mulheres que trabalham comigo. Não são universais. Mas são comuns o suficiente para que não possam continuar a ser ignorados. 

  1. A dificuldade emse apropriar do seu papel,sem pedir desculpa por isso 

Há pouco tempo acompanhei uma profissional que chegou até mim depois de anos a sentir que trabalhava o dobro dos seus pares para sentir que era levada a a sério. Não era falta de resultados. Era a forma como entrava numa sala. Como começava as frases. Usava expressões como “desculpe interromper” ou “não sei se faz sentido, mas…”. Como suavizava cada opinião antes de a dizer em voz alta. 

Não nascemos assim. Fomos ensinadas a ser assim. 

Durante anos aprendemos que ser assertiva é isto como algo mais próximo da agressivade. Que apropriar-se do seu papel, é ser arrogante. Que dizer “eu quero isto” é demasiado. E esse condicionamento não desaparece só porque chegamos a uma posição de liderança. 

O trabalho aqui não é fingir que o condicionamento não existe. É reconhecê-lo. E escolher, conscientemente, uma forma diferente de estar. 

  1. A síndrome do impostor queestá no leme da suaactuação 

Eu própria já passei por isto, e ainda passo. Quando passei da área técnica para a área das pessoas. Quando comecei o meu próprio negócio e lancei um workshop só com 4 inscritos. Não imagina o meu pânico. Acho sempre que não tenho a experiência necessária. Que os outros vão perceber que eu não pertenço ali. 

O que é irracional nisto tudo? Eu tenho a experiência necessária. Eu pertenço. 

A síndrome do impostor aparece com uma frequência impressionante em mulheres altamente competentes. E o mais curioso é que raramente desaparece com mais resultados. Porque não é sobre resultados. É sobre como nos vemos a nós próprias. 

Há uma pergunta que faço muitas vezes às mulheres que acompanho: se uma colega sua tivesse o seu percurso, as suas competências, os seus resultados, o que lhe diria sobre ela? A resposta é quase sempre muito diferente do que dizem sobre si próprias. A solução passa por mais autocompaixão e termos conversas mais positivas connosco próprias. 

  1. Onetworkingque cria desconforto ao ponto de não se fazer 

Muitas mulheres dizem-me que não gostam de fazer networking. Que se sentem a “vender-se”. Que não é natural para elas. 

Mas quando aprofundamos, o que encontro não é falta de competência social. Existe uma ideia muito enraizada de que  pedir ajuda ou conexão é uma forma de importunar. Que o valor tem de ser provado antes de ser pedido. 

E esta “ideia”  tem um custo enorme. Porque o mercado de trabalho é, em grande parte, construído sobre relações. E quem não as cultiva, fica invisível, independentemente do talento que tem. 

O mercado tem obstáculos reais. Isso não é opinião, é facto. Mas há algo que o mercado não controla: a forma como nos vemos a nós próprias. O que acreditamos merecer. A voz interior que diz “ainda não” quando já está mais do que na hora. 

Isso pode ser trabalhado. E quando é, muda tudo. Não porque o mercado se torna fácil. Mas porque deixamos de pedir permissão para assumir o lugar que já é nosso. 

E talvez seja precisamente aqui que começa a mudança real.